A influência da taxa de juros na tomada de decisão do investidor (Parte 1)

Historicamente, o Brasil sempre foi um país referência quando assunto é alta taxa de juros. Nas últimas décadas o brasileiro se acostumou a conviver com taxas de juros muito expressivas, convivendo com taxas de juros de dois dígitos nos últimos 20 anos, salvos dois breves períodos que somam pouco mais de dois anos em meses entre 2009-2010 e 2012-2013 onde a taxa atingiu mínimas que não se observava há anos chegando nesses período à 8.50% e 7.25% ao ano, respectivamente.

No gráfico a seguir pode ser observado a evolução da taxa básica de juros (Selic) nos últimos 20 anos. Mas qual a influência dessa evolução na rotina dos brasileiros? E mais, qual a influência desses diferentes cenários na tomada de decisão de um investidor? O que, de fato, representa as seguidas quedas na taxa de juros observadas nos últimos meses? Antes de discutirmos diretamente estas perguntas, é necessário dar um passo atrás para entendermos melhor o significado dessa taxa, os aspectos que a influenciam e os responsáveis pela sua definição.

 

GRÁFICO DE EVOLUÇÃO DA TAXA SELIC NOS ÚLTIMOS ANOS

Fonte: Banco Central

 

O Que Representa a Taxa Selic? Quais os Aspectos a Influenciam? Quem o Responsável por Sua Definição?

 

Se uma entidade ou indivíduo cede a outro um determinado valor e esses fazem um acordo de, em um certo período de tempo, aquele que recebeu devolver o dinheiro cedido acrescido de uma determinada quantia, essa quantia representa o acréscimo de juros daquela operação. Dessa forma, a taxa de juros é sempre calculada como um valor percentual de acréscimo sobre o valor cedido para um período de tempo determinado. Mas nesse cenário, o que é, afinal de contas a Taxa Selic?

A Taxa de Juros Selic ou, simplesmente, Taxa Selic é a taxa básica de juros da economia no Brasil. Formalmente ela é definida como “a taxa média ajustada dos financiamentos diários apurados no Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic) para títulos federais”. Mas de forma prática, podemos entender a Taxa Selic como a taxa média de juros que o governo brasileiro paga por empréstimos tomados dos bancos. Isto porque para adimplir suas dívidas e realizar investimentos, é comum a emissão de títulos públicos e mesmo a antecipação de recebíveis por parte do governo. E os principais “parceiros” nesse momento são os bancos que garantem a liquidez ao governo para que ele cumpra com suas obrigações.

Mas como a Taxa Selic é definida? Para responder à essa pergunta, é necessário entendermos melhor o papel do Banco Central no nosso sistema financeiro.

O Banco Central do Brasil (também conhecido por BC, BACEN, ou BCB) é uma autarquia, isto é, uma pessoa jurídica de direito público, que tem como missão “a estabilidade do poder de compra da moeda e a solidez do sistema financeiro do Brasil”. No cumprimento dessa missão, o BC atua em várias frentes, de executor à regulador, e dentre suas responsabilidades se destaca o controle da inflação. E o mais eficiente instrumento de controle da inflação é justamente a “manipulação” da nossa taxa básica de juros.

Nesse contexto, foi constituído no âmbito do Banco Central do Brasil, em 1996, o COPOM – Comitê de Política Monetária. O objetivo é claro: implementar a política monetária do Brasil, estabelecendo a meta da Taxa Selic a partir de análises dos relatórios da inflação. O COPOM é formado pela diretoria colegiada do BC e, atualmente, se reúne de 45 em 45 dias para estabelecer a taxa de juros que deverá ser empregada no próximo ciclo até a próxima reunião do comitê. A decisão é tomada a partir da análise dos relatórios da inflação, do nível de atividade econômica no país, do mercado de câmbio, dentre outros aspectos.

Dessa forma, por se tratar de uma taxa referencial proveniente de uma ampla análise do cenário econômico do país, naturalmente, a Taxa Selic acaba sendo uma base para o cálculo de todas as demais taxas de juros aplicadas pela mais variadas instituições financeiras do Brasil, como: bancos, seguradoras, concessionárias, provedoras de crédito, etc. Então, agora sim, com tudo explicado, como a Taxa Selic influencia as nossas vidas e a tomada de decisão dos investidores?

 

Como a Taxa Selic Influencia as Nossas Vidas?

 

Nos últimos meses, mais precisamente desde setembro de 2016, temos observado uma forte diminuição na Taxa Selic. Nas últimas oito reuniões do COPOM, foram praticados consistentes cortes na taxa básica de juros, atingindo nas últimas quatro reuniões consecutivas quedas históricas de 100 pontos base, isto é, quedas de 1% na taxa de juros. Com isso, após quase quatro anos, voltamos a vivenciar uma taxa de juros de um dígito, isto é, abaixo dos 10%, chegando a 9,25% em julho, e recuando ainda mais, passando a 8,25% este mês. Mas qual o impacto disso?

Como explicado anteriormente, a taxa de juros, em última instância, representa o “custo” do dinheiro em um determinado período de tempo. E como a Taxa Selic serve como referencial para as demais taxas de juros aplicadas no país, a sua evolução está diretamente relacionada à esse custo no dia a dia de todo brasileiro.

Em outras palavras, a queda da Taxa Selic observada nos últimos meses representa uma diminuição no “custo” do dinheiro para os consumidores brasileiros. Sendo possível observar um efeito cascata em todos os tipos de financiamento, crédito, parcelamentos, etc. Com isso é esperado um aquecimento da atividade econômica no país já que, com um crédito mais acessível, um aumento no poder de compra do consumidor é evento certo.

E não seria correto interpretar “consumidores brasileiros” apenas como eu e você, consumidores de varejo, pessoas físicas, que buscam bens de consumo com uma maior facilidade de crédito e parcelamentos mais acessíveis. Mais impactante que isso, é esse reflexo nas empresas, que também dependem de crédito e são reféns das taxas de juros ao se movimentar no sentido de fazer qualquer investimento em melhorias nos processos e maquinário, expansão de sua produção, novas implantações, desenvolvimento de novos produtos e serviços, etc.

Além disso, muitas das empresas, especialmente do setor produtivo, industrial ou de varejo, se beneficiam da queda de juros também pelo simples aumento da demanda proveniente do reaquecimento da economia, uma vez que a venda de seus bens, em geral, dependem fortemente de crédito acessível para seus consumidores.

Mas se a queda de juros traz tantos benefícios para a economia, atingindo desde os menores consumidores até as grandes empresas, por que o Banco Central simplesmente não define taxas de juros menores ainda?

Tenhamos calma! Como mencionamos anteriormente, a definição da taxa básica de juros é o principal instrumento utilizado pelo BC para manter a inflação sob controle. Uma diminuição descontrolada da taxa de juros aumenta o grau de consumo e endividamento da população em geral e pode fazer com que esse aumento da demanda se torne maior que a capacidade de produção das indústrias. Com isso, se a procura é maior que a oferta do mercado, os preços sobem, desencadeando a inflação e possibilitando com que ela chegue à indices assustadores como já observamos em períodos mais sombrios da nossa economia como mostra no gráfico a seguir com a evolução do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), índice produzido pelo IBGE desde 1979 que tem por objetivo medir a inflação de produtos e serviços comercializados no varejo.

 

GRÁFICO DE EVOLUÇÃO DO IPCA NOS ÚLTIMOS ANOS

Fonte: IBGE

 

Além do mais, se por um lado uma taxa de juros baixa representa um maior aquecimento da economia e grandes benefícios à empresas de vários setores, por outro, para bancos e demais empresas do setor financeiro pode representar uma significativa desvalorização. Isto porque é com base na Taxa Selic que essas instituições calculam não só os juros cobrados pelos empréstimos e financiamentos concedidos aos seus correntistas e ao próprio governo, como já vimos, mas também os rendimentos pagos aos seus investidores nos mais variados tipos de investimentos. A diferença entre esses valores, conhecido como “spread bancário”, representa uma importante parcela das receitas das instituições financeiras.

Pois bem, uma vez explicado o funcionamento da Taxa Selic, podemos partir para o ponto central do nosso artigo: como, afinal de contas, um investidor deve orientar sua tomada de decisão a partir da evolução da Taxa Selic. Mas com o volume de informações já discutidos, deixemos a “cereja do bolo” para o nosso próximo encontro. Não perca, semana que vem estou de volta com a conclusão deste artigo.

Gomide

Co-founder & CEO da SmarttBot. Formado em Ciência da Computação pela UFMG. Mestre em Machine Learning pela PUC-Rio. Apaixonado por Empreendedorismo e pelo Atlético-MG.