A influência da taxa de juros na tomada de decisão do investidor (Parte 2)

Conforme explicado na primeira parte deste artigo, publicada na última semana, de maneira direta, uma taxa de juros representa o “custo” do dinheiro em um determinado período de tempo. Com isso, quanto maior as taxas de juros, “mais caro” fica o dinheiro, já que a tomada de crédito junto à qualquer instituição financeira implicará em mais juros cobrados, e com isso menor será o poder de compra do consumidor em geral.

Vimos também que a Taxa Selic é um dos principais indicadores do nosso mercado. Ela representa a taxa básica de juros da nossa economia e é vista como uma referência muito natural para o cálculo de todas as demais taxas de juros praticadas no país. Mas como isso afeta a tomada de decisão do investidor?

Se em um cenário de compra, de consumo, de tomada de crédito, os juros podem ser vistos como o “custo” do dinheiro, por outro lado, em um contexto de investimento ou aplicação financeira, é natural enxergar os mesmos juros como o “valor” do dinheiro. Isto porque da mesma forma que nós pagamos juros ao financiar algum bem ou pegar um empréstimo junto à alguma instituição financeira, ao aplicar o nosso dinheiro em uma modalidade de investimento qualquer, nós somos o credor dessa movimentação. Em outras palavras, uma aplicação é, na prática, um empréstimo que o investidor está fazendo a uma outra parte que lhe pagará juros proporcionais ao montante investido.

Seja comprando Títulos do Tesouro, quando o investidor está financiando o próprio governo brasileiro, seja através de CDBs, quando o beneficiado é um banco, ou em qualquer outro tipo de investimento, o rendimento recebido sempre é pago pela outra parte que pode ser vista como devedora de um empréstimo.

Dessa forma, se o rendimento de um investimento pode ser entendido como os juros pagos pela instituição que receberá a aplicação, é natural que esse rendimento esteja diretamente relacionada à Taxa Selic. Esta é exatamente a realidade de boa parte dos investimentos de renda fixa como Títulos do Tesouro, CDBs (Certificado de Depósito Bancário), LCIs (Letra de Crédito Imobiliário) e LCAs (Letra de Crédito do Agronegócio). Renda fixa relacionada à Selic? Mas, em geral, o rendimento desses e outros investimentos não são atrelados ao CDI (Certificado de Depósito Interbancário)?

O CDI e sua relação com a Taxa Selic

 

Da mesma forma que a Taxa Selic é a taxa média de juros que o governo brasileiro paga por empréstimos tomados dos bancos, o CDI, ou Certificado de Depósito Interbancário, representa os juros que as instituições financeiras pagam umas às outras na tomada de empréstimos.

O CDI é também um importante indicador do nosso mercado. Assim como a Selic serve de base para o cálculo das demais taxas de juros do mercado, o CDI funciona como uma referência natural para o cálculo dos rendimentos dos mais variados investimentos de renda fixa.

Mas se no começo deste artigo vimos que, na prática, o rendimento de um investimento é, de certa forma, os juros pagos pela instituição onde a aplicação foi feita, qual a relação entre a Selic e o CDI? Naturalmente, são indicadores com uma alta correlação, tendendo a “andarem sempre de mãos dadas”. No gráfico a seguir é possível observar a sintonia na evolução desses dois indicadores.

Por se tratar de um indicador que referencia a transação entre bancos, não é permitido ao investidor, seja pessoa física ou jurídica, investir diretamente no CDI. Entretanto, a esmagadora maioria dos investimentos de renda fixa tem seus rendimentos atrelados ao CDI. Exatamente por isso é tão comum ouvir que determinado tipo de investimento de renda fixa rende um percentual X do CDI. E com isso, quando observamos uma alta na Taxa Selic, e portanto no CDI, os diversos tipos de investimentos de renda fixa se tornam mais atrativos. Mas e a renda variável? Como a bolsa de valores é afetada pelas variações da taxa básica de juros?

A influência da Taxa Selic na bolsa de valores

 

A influência mais direta da Taxa Selic na bolsa de valores é um reflexo imediato do nível de atratividade dos investimentos de renda fixa disponíveis. Quanto mais atrativos estão os investimentos em renda fixa, menor é a busca por investimentos de renda variável, uma vez que estes, naturalmente, apresentam um maior risco além de exigirem mais conhecimento do investidor.

Sendo assim, em um cenário de forte queda da taxa básica de juros como o atual, é esperado um aumento do volume negociado na bolsa de valores por parte dos investidores que estão em busca de rentabilidades mais expressivas como àquelas experimentadas há alguns meses, quando a alta Taxa Selic propiciava investimentos mais seguros com rendimentos de mais de 1% ao mês. Ainda que para isso estes investidores tenham que “pagar o preço” de assumir todo o risco do mercado de renda variável.

Por si só, essa movimentação de investidores deixando a renda fixa em direção à renda variável já representa um ganho para a bolsa de valores. Isto porque a entrada de mais capital no mercado representa uma maior pressão compradora deixando o ambiente favorável para uma valorização.

Mas em quais empresas o investimento seria mais promissor neste contexto de baixas taxas de juros?

Conforme discutido na primeira parte deste artigo, uma vez que as baixas taxas de juros facilitam o acesso ao crédito e diminuem o Custo Efetivo Total (CET) das compras parceladas, empresas cujas vendas dependem fortemente de crédito e parcelamento tendem a apresentar uma boa valorização à medida que a Taxa Selic se retrai. Dentre essas empresas, podemos citar, principalmente, as empresas de consumo e as construtoras.

Outro tipo de ativo que vale observar ainda mais de perto, em um contexto de juros baixos, é aquele de empresas pagadoras de dividendos. Algumas delas chegam a pagar dividendos de 10%, 11% ou até 12%, representando uma boa forma de buscar rendimentos similares aos conquistados na renda fixa em tempos de Taxa Selic em alta.

Espero que tenham gostado e aprendido um pouco mais sobre a influência da taxa de juros nas nossas vidas e, principalmente, nos nossos investimentos. Se tiver ficado alguma dúvida ou tenham sugestões para um próximo artigo não deixem de comentar. Até uma próxima oportunidade!

Gomide

Co-founder & CEO da SmarttBot. Formado em Ciência da Computação pela UFMG. Mestre em Machine Learning pela PUC-Rio. Apaixonado por Empreendedorismo e pelo Atlético-MG.